Posts Tagged ‘teologia da prosperidade’

Tesouros

julho 4, 2013

Me parece que estamos sendo pouco produtivos. Aliás, estamos tendo prejuízo nos nossos negócios. Nosso lucro é minguado, volátil. Nosso crédito é escasso. Ninguém está disposto a financiar nossas causas. Somos trabalhadores de um trabalho roubado antes mesmo de estar completo. Os abusos corroem nossos salários. E sobre o que poupamos pesam impostos, taxas e outros penduricalhos. Ficamos pobres. Vivemos à míngua da vida que almejamos.

E tudo isto porque nos esquecemos. Isto mesmo, o sol nasce e se põe, inúmeras vezes por sobre nossas cabeças, e nos esquecemos, ignoramos, os conselhos antigos:

“Porque os filhos são a herança do Senhor”, “melhor adquirir sabedoria que o ouro”. “Com a sabedoria se constrói a casa” e “ser estimado é melhor que riqueza e ouro”. “Mais vale ter um bom nome do que muitas riquezas”. Por isso “emprega tudo o que possuis na aquisição de entendimento”, “pedi, e dar-se-vos-á”. “Deus dá a sabedoria”. “Não acumulem tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e os ladrões roubam”. “Acumulem tesouros no céu”, porque “onde estiver o seu tesouro, aí estará o seu coração”.

É isto. Tesouros, então, são conhecimento, relacionamentos e uma vida íntegra e respeitável. Estamos no negócio errado.  Encerro com uma última recordação, uma história cuja lição não poderia ser mais clara:

“Um homem rico tinha produzido com abundância; E ele pensava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus (v. Bíblia, em Lucas 12)”.

 

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Despersonalização do Milagre

novembro 14, 2011

Acompanhe comigo: Jesus encontra alguém e diz: levanta-te e anda. A outro, num outro momento, diz: Vai, tua fé te salvou. A outros diz: Homens de pouca fé (logo após ter salvo a todos de uma tempestade). A outro diz: Sai para fora. A outros diz: Porque choram, não vêem que a menina apenas dorme? Menina, levanta. A outro diz: Toma teu leito e anda…

Em todos esses casos eu vejo Jesus, cercado talvez por uma multidão, mas repousando os olhos sobre Alguém. Alguém com nome, com uma história, alguém específico. A pergunta que fica é: Jesus curou a todos os enfermos? (biblicamente, não). Jesus operou milagres diante de todos que ansiavam por milagres? (novamente, resposta negativa). Diante disto, eu me pergunto:

Quem transformou o milagre em uma oferta coletiva, determinável e voluntária?

Quem ensinou que o milagre é exigível?

Quem ensinou que há um milagre para tudo?

Onde estão tais promessas de milagres?

Eu gostaria muito de ouvir, um dia, a canção sendo cantada em forma de pergunta, da maneira mais sublime, humilde e singela, sem triunfalismo, mas com consciência da condição humana: Deus…

“hoje o meu milagre vai chegar?”

Quem somos. Quem não somos.

junho 7, 2011

Não somos cristãos. Somos o relógio moderno. Somos a soma das horas de trabalho cumpridas diligentemente, mais o tempo que levamos nos percursos que fazemos (sempre com pressa), mais o tempo que gastamos em entretenimento, mais o tempo que investimos em nós mesmos, ou seja, somos um cronograma, em que a espiritualidade e as questões transcendentais, por sinal, contam com uma parcela medíocre do todo. Não somos cristãos. Não buscamos com primazia a realização prática de uma consciência profunda de significado, que nos daria uma única noção de tempo, um alfa e um omega. Alfa: Jesus morreu e ressuscitou e ali começa a correr o tempo para nós, tempo de arrependimento e de busca, interior e sobrenatural, de retorno a Deus. Omega: o mesmo Jesus disse que viria novamente, num advento de propósitos sem conta, para selar nossa aliança. Se fôssemos cristãos, nossos relógios só marcariam estes dois momentos. Nossas preocupações, logo, seriam programadas cronologicamente por eles.

Não somos cristãos. Somos cidadãos do mundo. E como cidadãos, vivemos imersos, aconchegados e em uma relação diretamente proporcional de decadência, não só de valores, mas também de consciência. Explicamos, através da afirmação bélica de democracias, através de barganhas humanísticas a que chamamos “direitos humanos”, de esquemas infantis de “desenvolvimento sustentável”, que podemos nos governar sozinhos. Que somos donos do pedaço. E o pedaço é este mundo azul, girando em seu próprio eixo, previsível e aparentemente governável, mas que estaria bem melhor sem nossa presença aí. Se fôssemos cristãos, aprenderíamos como nossos bichinhos de estimação uma lição simples de humildade: a criatura não tem condições de se auto-governar. Se fôssemos cristãos, saberíamos que “governo de Deus” em nenhum sentido significa “política”. Que somos cidadãos de uma outra pátria, e assim, devemos ser identificados. Se fôssemos cristãos, seríamos atípicos, causariamos estranhamento nas ruas, despertariamos curiosidade sobre “vida além da terra”, “vida além da morte”, mas somos mundanos demais pra isso. Passamos desapercebidos.

 Não somos cristãos. Somos o patrimônio. Somos um fundo de investimentos em ferro e carne. Distante dos discursos, cada um ajunta o que pode desses materiais preciosos no porão. “Tempos difíceis estão vindo”, pressagiamos, sem perceber o quanto estamos certos e enganados ao mesmo tempo. Somos o que podemos realizar, a profissão que desempenhamos, a família que construímos, a herança que deixamos. Nossa matéria emocional e psicológica  tem a mesma consistência da nossa “estabilidade financeira”. Somos o que podemos ter. E aos poucos vamos dando preferência às coisas, às instituições de utilidades, à tradição dos prédios e negócios, esquecendo que éramos pessoas. Se fôssemos cristãos, saberíamos perguntar primeiro “o que posso fazer por você?”, antes de perguntar “o que você pode fazer por…?”. Saberíamos enxergar no mendigo, gente, e não um fracasso social, veja. Teríamos uma escala de valores invertida e não estereotipada. Teríamos outros objetivos para realizar nesses curtos 70 anos médios de vida que dispomos (com sorte) que não casa-trabalho-filantropia. Não nos mobilizariamos para acabar com a pobreza material no mundo. Isso faríamos dividindo tudo o que temos com os pobres. Nos mobilizariamos radicalmente para debelar toda “fome existencial” que há, e que não faz distinção entre classe social. Se fôssemos cristãos, a palavra “prosperidade” para nós significaria tudo, menos bens materiais.

Não somos cristãos. Somos profetas de uma nova religião: o Egocentrismo. E como tais, apregoamos que a única e determinante pessoa que realmente importa na relação com qualquer outra coisa é: o eu. Pronunciamos assim, o maior dos absurdos. Porque a palavra relação traz como radical de significado a figura do outro. Pressupõe e impõe o outro. Este outro que não toleramos, logo, ignoramos. Ignoramos sem muita cerimônia. Existem certos meninos de rua praticamente invisíveis. Existem certos idosos, certos depressivos, certos homossexuais que preferiamos que não existissem. Perdemos o “trato”, o tato, com quem é diferente ou nunca o tivemos? Quando foi que começamos a perder os sentidos? Fomos sempre assim, inábeis para ajudar? Os profetas do Egocentrismo tem os braços curtos demais, suas mãos jamais serão plenamente estendidas. Ouvidos defeituosos, olhos prejudicados pelas traves e obstáculos do “meu primeiro”. Cultivar amizades é um sacrifício pra nós. Só mesmo as convenientes. E nos filiamos apenas àquilo que possa nos promover algum “rendimento pessoal positivo”. Doar é coisa de instituição de caridade. Doar-se, então, nem se fale. Se fôssemos cristãos teríamos no outro a medida de Deus, sabendo que “toda vez que você der de comer a um desses pequeninos, está fazendo isto a mim”. Se fôssemos cristãos, teríamos um quarto de hóspedes na nossa alma, não simplesmente nas construções. Saberíamos aconselhar sabiamente, entenderíamos o outro profundamente e seríamos precisos como Jesus em palavras e cura. Poderíamos encher a boca e dizer: “venham todos que estão cansados e sobrecarregados… nós ajudaremos”.

Não somos cristão. Somos uma sombra do que deveríamos ser e o nome não mais nos cabe. No início, estávamos nele, mas “todos pecaram” e aí estão nossos pecados.  Auto-conhecimento e arrependimento é a alternativa salvadora para uma vida verdadeiramente cristã. Espero que não sejamos, sobretudo, orgulhosos demais pra isto.