Posts Tagged ‘religião’

O Pecado da Ignorância

novembro 17, 2011

Não é novidade que o cristianismo, a “igreja institucional”, tem uma história controversa e paradoxal. Maior parte do estrago foi resultado desse sentimento de “nós temos a Lei de Deus” para os homens. Em nome desta linha de pensamento, muita gente viu o fogo e a fúria, o sangue e o açoite, até mesmo o próprio Cristo (quando se pensa no Judaísmo como antecessor imediato do Cristianismo). O que se vê hoje não está muito distante do que já houve à epoca da igreja medieval. O pretenso cristianismo, de pretensos “pais da fé”, já produziu resultados igualmente nefastos. Da fogueira ao linxamento social, só muda o método. E não negaremos, em momento algum, que somos herdeiros deste passado histórico, ou estariamos cinicamente, tolamente, nos desviando da questão central que determina o poder para o bem ou para a desgraça da religião: o poder do conhecimento. Podemos pecar. Só não podemos ignorar nossa condição de pecadores. Não podemos ignorar a existência e a prevalência dos valores sobre as intenções. “Ainda que desse o meu corpo para ser queimado e não tivesse amor, nada seria”. Citações como estas, se esquecidas, determinam o obscurecimento do potencial salvador que há no Evangelho. Sobretudo, não podemos ignorar a obra orquestral que se deu através da vida de Jesus, de seu exemplo e direcionamento, que nos tira da ignorância humana. Longe da igreja institucional, que por si só não apresenta qualquer novidade, o Cristianismo em Jesus assume o “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A novidade que transcende a vida, que propõe a eternidade, uma mensagem baseada em valores cultivados com consciência e amor sacrificial, a ponto de anular totalmente a vingança, a brutalidade, o ressentimento. O que se vê no cristianismo de hoje é a crise de identidade, a pane estrutural, o câncer principiológico desta religião que perdeu o “sentido”, tornou-se ignorante de sua missão, de seus resultados, de seus porquês e pra quês. E pior, ignora sua ignorância, veementemente divulgando a “vontade de Deus”, os “planos de Deus”, as “promessas de Deus”. Os fiéis, desse modo, aplicam sua fidelidade sem questionar. Os pastores, pastoreiam um rebanho de um Deus anônimo, ou generalizado, ou no pior dos casos, egocêntrico.

Como se não bastasse isso, a ignorância ainda impõe um castigo maior: a simploriedade. Omne ignotum pro magnifico est. Qualquer latim nos ilude, qualquer evento místico, qualquer evento “além de explicação”, e acreditamos que Deus deve prezar pela ignorância, pela credulidade cega, sem saber que Jesus instruiu e promoveu a sabedoria, em atos e palavras, além de ter alertado contra os profetas, adivinhadores, operadores de milagres, etc. A ignorância nos prega peças, nos faz acreditar que o que não entendo DEVE ser verdade. Se não sabemos que Deus é este, então qualquer um há de servir. Se não sabemos o que esperar, então o que vier será inesperado e maravilhoso aos nossos olhos. A ignorância nos tira da condição de “ovelhas em verdes pastos” e nos faz ovelhas caminhando distraidamente para o matadouro. Engraçado fazer este tipo de referência a ovelhas, quando o próprio Jesus disse (veja Evangelhos) que “minhas ovelhas conhecem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem”. Não somos ovelhas estúpidas. Não somos uma manada desorientada.

Claro que ainda estamos resolvendo nossas crises, buscando praticar nosso discurso, aprimorar nossa parcela de contribuição no mundo, esta busca para nós é “louvor a Deus”. Podemos até não saber todas as respostas. O que não podemos é ignorar o tamanho da nossa ignorância. Numa atitude de humildade, devemos prequestionar nossas certezas diante deste mundo caótico e despreocupado com qualquer verdade que exceda o agora.

“Por causa disto me ponho de joelhos perante nosso Deus, do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome, para que, segundo as riquezas da sua glória, conceda a vocês que sejam confirmados com poder pelo seu Espírito no homem interior, para que Cristo habite pela fé em suas mentes, a fim de, estando arraigados e fundamentados em amor, possam perfeitamente compreender, todos juntos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejam cheios de toda a plenitude de Deus”.
(ver Bíblia, Efésios 3)

A verdadeira resposta ao mundo será dada pela boca do cristão que sabe que precisa da mente de Deus para responder ao significado da vida. E esta mente para nós não é patente, mas sim mistério, a ser revelado diariamente, numa vivência intensa e significativa de descobrimento.

De si, de Deus, do outro  e do mais.

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Deus. Política e Religião.

fevereiro 20, 2011

Difícil proposta, hã? Incluir na mesma conversa, como participantes, de um lado Deus, o que ele representa para nós, intimamente, e política e religião, propostas tão “cheias de verdades absolutas”. Mas vamos a ela, à esta tentativa de propor diálogo. Como ocorreu a iniciativa? Um amigo fez, a algum tempo atrás, uma afirmação um tanto desconcertante pra mim. Dizia ele que religião e política nunca deviam se misturar. Eu discordei ferrenhamente. Não porque não havia entendido o significado daquela afirmação (que só exprime o temor, o horror evocado na nossa memória quando lembramos de todas as vezes que alguém misturou esses dois “combustíveis sociais altamente inflamáveis” e pôs fogo na mistura), ou seja, ele estava incomodado com uma questão próxima, real e bastante coerente, mas não tinha em foco o problema em si. E desse modo me propus a ajudá-lo a enxergar este ponto de vista, na medida do possível.

Religião e política não podem ser dissociadas. Assim como política e psicologia, música  e religião, o fenômeno pop e a configuração da família, ou seja, tudo que é humano versus qualquer outra coisa ainda humana.

Mas para responder a esta questão básica preciso traçar uma fronteira. A fronteira entre Deus, na figura de Jesus (que nos é a mais íntima e chegada), e religião. E só recorro a um único argumento simples para estabelecê-la: A religião, toda forma de religião, é anterior ou posterior a Jesus? Sim, porque uma coisa é dizer que Jesus veio instituir a religião, ou que é seu patrono ou ícone. Isto é totalmente falso. A religião é anterior a Jesus. E inclusive, grande parte do seu empenho foi nos tornar mais lúcidos com relação a ela.

Sim, porque é nele, no seu “Life Stile” (ou estilo de vida, como diz um amigo) que eu deposito toda a minha confiança. Minha fé está firmada em sua afirmação quando disse “eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim”. Logo em seguida ele se levanta, cansado da teoria, e põe em prática aquele modo de viver de arrepiar, contrário a tudo que somos, ferrenhamente oposto ao “modo corriqueiro de viver” ou, como chamamos, “o modo mundano de viver”.

Minha fé não está, nunca esteve, fundamentada na religião, pelo contrário, uso minha fé como bem entendo para criticá-la, assim como faço com a política, a economia, a arte, a moda, enfim, tudo que minha consciência puder tocar, numa tentativa de humanizar estas experiências, torná-las saudáveis. E não vou dizer que quero divinizar nada, porque já quanto a isto não tenho condições. Humanizar sim, porque sou humano. Divinizar pertence a Deus, e somente isto peço diariamente: Senhor, não necessito que a religião seja divina, nem a política, nem a história, nem a economia. Quando chegar a hora, Diviniza a minha alma. E por enquanto, humaniza-me ao máximo.

Logo, quando digo que não posso comprometer meus princípios cristãos diante de qualquer coisa (política, inclusive), estou certo. Mas quando digo que não posso relacionar Jesus a qualquer coisa, estou enganado. Na verdade, o desconforto está em perceber que o que chamamos de “princípios cristãos” não são, ao contrário do que é dito, uma unanimidade pacífica. Há quem diga que levar as pessoas a votar em determinado candidato por esse ou aquele motivo, ditas “em nome de Jesus”, é um ato cristão. Sinceramente, estas discussões pra mim são completamente periféricas, superficiais e frágeis. Quando penso na Palavra “enganoso é o coração do homem, quem o pode sondar?” perco a coragem de defender ferrenhamente quem quer que seja. Quando medito sobre “Como rio de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer” percebo que a escolha deste ou daquele nome é indiferente, já que quando o Senhor quiser falar, ele o fará a quem quer que seja.  Toda a discussão perde o sentido e chegamos a lugar algum, porque estamos correndo atrás de respostas a nossas próprias inclinações políticas, tentando elevar nossa aspirante “análise sociológica do ideal de futuro humano” à categoria de “propósito divino”. Realmente, desde ponto de vista, Jesus e política são inconciliáveis. Assim como a religião e a política.

Quer conciliar religião e política? Longo caminho: humanizar essas duas feras sociais, promover o diálogo entre dois leviatãs furiosos em poder e inesgotáveis em argumentos sobre “quem é o melhor caminho para o sucesso da humanidade”. Nota: Talvez um pouco mais do conhecimento de Deus, verdadeiramente Deus, possa ser de grande ajuda na tarefa, logo, é possível o diálogo, conquanto Deus seja posto como mediador entre nós e qualquer coisa.

Quer conciliar Deus e Política? Tente partindo daqui: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Vejo pouco disso no movimento político-religioso de qualquer lugar do mundo (e se formos falar do passado e do presente, vamos ter que nos humilhar ainda mais pelos equívocos bizarros que cometemos e atribuímos a Deus). Talvez seja melhor, de fato, aprender a pilotar a motocicleta antes de empreender grandes viagens, ou seja, talvez seja melhor refrear o discurso e as tentativas, agir com prudência, como ensina a Palavra, para não ferirmos a “Vida em nome de Deus” que queremos preservar no processo de descobrimento do “modo correto”. Porque ainda somos crianças. E só tendo consciência, assumindo esta nossa infantilidade diante de Deus, entendendo que ainda o estamos conhecendo (e estamos longe do completo entendimento), poderemos atingir o “Reino dos Céus”. Concluo, crendo que a causa dos nossos sucessivos insucessos está NÃO no antagonismo radical entre Deus e qualquer coisa (e consequentemente entre Deus e política, Deus e diversas religiões), MAS SIM na dificuldade que ainda temos em conciliar a mente de Deus, a verdade oculta de quem Ele realmente representa para nós, quais são seus propósitos, quem Ele realmente É, à  nossa vida, integralmente, na condição de Homens. Seja na figura de Políticos, Religiosos, ou o que quer que seja.

 

Jesus. Além da Religião.

agosto 4, 2010

Eu já pensei serem as religiões portas. Muitas portas que levariam ao mesmo Deus. Mas então me lembro de Jesus dizendo “Eu sou o caminho… ninguém vai ao pai senão por mim” (v.Bíblia, L. João, cap. 14).

A religião é a moldura do quadro ? Em que a moldura atrapalha ? A moldura não é uma obra prima, mas nós tendemos a considerá-la assim. Transformamos em Intocável o superficial, muitas vezes esquecendo o sentido da obra, resistindo quando ela precisa de uma nova moldura que a ampare, afinal, o mundo muda, as molduras mudam, só a verdadeira arte continua insubstituível.

Jesus está nas coisas simples, no amor entre pessoas iguais ou diferentes, nos gestos do espírito, na bondade não ensinada, como a bondade das crianças, não imposta (daí “necessário nascer de novo”, v. João 3;  e “Deixai vir a mim os pequeninos…porque deles é o reino de Deus”, v. Lucas 18).

Jesus está contido na religião ? Não. Se estiver, quando faltarem as velas, cessa a misericórdia que atende aos pedidos. E se não houverem escadas enormes, cessa a conquista do favor e da graça. E se não houver dinheiro para dízimo, cessa a prosperidade prometida.

A religião segue regras morais. A moral é o juízo de valor da conduta humana. E não preciso dizer que Jesus não está preso à ela, afinal, ele não era um homem comum, era um homem em contato direto com Deus. Isso é assustador. Jesus era assustador. Andava com a escória, era mais sábio que qualquer mestre e, como missão póstuma deixou-nos um desafiador “sejam santos porque eu sou santo” (v. Levítico 11).

Difícil?

“No mundo vocês terão dificuldades,

mas tenham ânimo, eu venci o mundo”.

(últimos conselhos de Jesus  antes de sua morte, v. João 16)

Deus. Além da Religião.

agosto 2, 2010

Olá, pessoal do blog,

quero dividir com vocês um raciocínio sobre Deus e o paradigma religioso, não para ofender a religião (porque, sinceramente, não considero a religião como instituição uma causadora de problemas), mas para discernir o que é, de fato, Deus (relacionamento com ele, dedicação a ele, vida para ele) e o que é liturgia, rito, compromisso social apenas. Vamos a isso?

 

Os paradigmas de Deus são simples: amor prático ao próximo em ações que ajudem, edifiquem (traduzindo: construam algo de bom no outro), contribuam,façam a vida de alguém (ou a de todos à volta) melhor, em algum aspecto mais agradável, em relacionamentos relevantes e sempre bem intencionados; justiça para consigo mesmo e para com Deus, vivendo querendo o melhor da vida e afastando-se do que há de ruim, na sinceridade que afasta a hipocrisia, o orgulho, que nos faz enxergar nossas limitações, que nos dá a sensibilidade de perceber que, apesar de cometermos erros diferentes, todos erramos e todos somos carentes de Deus, que é nossa linha reta num mundo que anda em círculos; paz, interior e exterior, no controle do ânimo, do mau-humor, da vontade de devolver a ofensa, paz em casa, paz na criação dos filhos, na hora de tratar os erros, na hora de tomar decisões difíceis, na iminência da morte; e alegria, aquela festa diária de estar vivo e ter tantas possibilidades, a satisfação de estar vivo, ter amor, ter amigos, ter um motivo, relevância, a alegria infantil das pequenas coisas, das tardes ensolaradas, essas pequenas atividades prazerosas, as vitórias e os títulos, a mudança de vida, a felicidade almejada; , a firme convicção de que existe alguém, que pode não ser sensorialmente apreensível, mas ainda assim é real e consciente, olhando, zelando, guiando os passos da humanidade (principalmente daqueles que confiam em sua palavra), aguardando no outro extremo da história, para uma razão maior que simplesmente 100 anos de vida.

Os paradigmas religiosos, contudo, não são tão uniformes, mas invariavelmente teremos: liturgia, o passo a passo do funcionamento do seu comportamento religioso: levantar a mão? Não levantar? Falar alto ou baixo? Vestir roupas longas ou curtas? Reunir-se aos domingos ou todos os dias da semana? Dizimar quanto? Chamar Deus de quê? Chamar o amigo ao lado de quê? Ler algum livro? Fazer alguma prece? Decorar alguma coisa? Cantar que música? Ler que literatura?Frequentar que ambientes? Temer o quê? Fazer e não fazer o quê? E a Crença, a confiança depositada no conteúdo de algum enunciado ou indivíduo, na efetividade de alguma prática, na esperança de que determinados hábitos resultem em determinados resultados.

Permitam, contudo, que eu lance algumas perguntas inspiradoras:

Se eu vou a determinado culto, em determinado local, e sigo todos os protocolos formais (sento-me, ouço o sermão, canto determinado tipo de música, leio determinada literatura), durante um mês, mas no final deste prazo não acrescentei em nada, no meu dia-a-dia, dos paradigmas de Deus (não sou uma pessoa melhor, mais paciente, mais agradável no trabalho, mais tranquila com os problemas domésticos por confiar em Deus, mais serena de espírito, menos deprimida), em que grupo eu me enquadro: “Filho de Deus” ou “Simplesmente religioso”?

Se eu for impecável no cumprimento dos paradigmas da minha religião, sendo cuidadoso em observar suas normas,(ex. frequentar assiduamente as reuniões) em realizar todos os seus votos e obrigações (ex. dizimar, evangelizar), em manifestar abertamente minha posição diante da comunidade, em atrair novos adeptos, mas for ainda imaturo nos paradigmas de Jesus (ainda não sei amar nem demonstrar amor e respeito, não sou educado e sincero, ainda ando ansioso e estressado, ainda burlo regras morais e sociais básicas, minto muito, não trabalho direito, não pago a quem devo e minha família é um ambiente pouco comunicativo e negativo), posso ser chamado de Filho de Deus? Ou Tecnólogo da Religião?

Se eu praticar determinado conselho ou rito, seguindo suas determinações que prometem tornar-me mais próximo de Deus, se eu orientar minha vida ao redor de determinado grupo de ensinamentos doutrinários que prometem resultar em algum aprendizado e crescimento, e depois de um, dois, três anos de prática fiel, percebo que eles não produziram em mim o que deveriam produzir, ou que eu não evolui como indivíduo, nem me aproximei mais de Deus e de conhecer o segredo de viver de acordo com seus paradigmas (com fé, amor, paz, alegria e tantas outras “bênçãos” prometidas), posso concluir que minha religião pessoal é morta, e que minha prática religiosa em si é insuficiente para me tornar mais íntimo de Deus, mais parecido com ele?

Os paradigmas de Deus são claros e universais. O amor sempre será o amor, a fé será sempre fé, assim como a justiça será a justiça. Pratica-los é uma maneira universal de ir ao encontro de Deus. Já os paradigmas religiosos são incertos, variáveis de modalidade para modalidade religiosa, são um terreno fértil para controvérsias e árido para certezas.  Quem apóia sua busca por Deus em paradigmas religiosos vive uma vida infrutífera, padece no entendimento do mundo e acaba anulando a beleza de Deus, sua glória, seu propósito. Quem vive uma vida alicerçada na “rocha” que são os princípios que Jesus ensinou “com seu sangue”, com sua existência, viverá consciente e plenamente satisfeito, nunca deixando de aprender, com motivos de sobra para sorrir, amado e respeitado por todos, escrevendo uma história impecável, um caminho seguro e direto até a eternidade, onde Deus está. No fim das contas, Deus se mostra como o sol acima do nebuloso, incerto, ambiente religioso. Muitos só vêem Deus parcialmente, não podem contemplá-lo claramente, nem sua vontade, porque vivem dias tempestuosos, nublados, difíceis por conta da religião. Mas Deus, como o Sol, está além das nuvens. Acima, muito acima dali, e claro como o dia.

 

Grande abraço,

Thiago