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Anda com Ele

julho 7, 2013

Violência. Impressiona pensar no que o homem é capaz. Além de ser capaz de ferir, tirar a vida, o ser humano ainda tem uma enorme capacidade para ferir a alma. Nós, que prezamos pela nossa segurança, aprendemos então, através do medo, a eleger os nossos inimigos. E a regra de ouro do medo é: fique longe deles. É a partir deste raciocínio que vamos refletir sobre como Jesus revolucionou a humanidade, tanto diante do medo, como através da esperança. Veja, se nós seguimos a lógica deste mundo individualista, nosso bem estar estará de tal modo acima da importância do outro que nos tornaremos, aos poucos, ilhas. Isto porque, nos últimos tempos, ninguém quer ferir-se, expor fraquezas, chorar abertamente. Nos escondemos sob máscaras insensíveis e nos afastamos daqueles que, do menor ao maior grau, nos ferem. E aí nos tornamos ilhas. Uma humanidade solitária, existencialmente esvaziada do outro.

O Cristianismo, contudo, tem como fundamento o amor. Amar ao próximo como a si mesmo. Amar amigos. Interceder pelos inimigos. Recorro aos dois textos mais chocantes a respeito do tema:

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado”. “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos (ver Bíblia, livro de Mateus, cap. 5)”.

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram (…) Não retribuam a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos. Façam todo o possível para viver em paz com todos. Amados, nunca procurem vingar-se (…) mas pelo contrário, Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem (v. Bíblia, livro de Romanos, cap. 12)”.

Nas palavras de Jesus e de Paulo, qualquer deliberada devolução de violência é insustentável do ponto de vista cristão. E isto para nós, cidadãos deste mundo, onde se clama por “justiça” e se luta tão ativamente contra a violência urbana, pode parecer loucura, mas pense. Você consegue ver o potencial revolucionário que um princípio como este tem se for diligentemente praticado? O poder de encerrar guerras históricas, de pacificar povos, de por ordem no caos do ódio humano. Nós só precisamos entender que um cabo-de-guerra só é possível quando os dois lados tencionam vencer através da força, através da dominação do outro, em revelia a suas necessidades. E as vezes, mesmo o lado “vencedor” experimenta perdas tão profundas que o valor em si da disputa se perde.

A intensa verdade reside, pra mim, na sentença: “anda com ele”.

Quando isolamos nossos inimigos, quando nos entrincheiramos, polarizamos a disputa e confundimos a violência em si com o ser humano em si. Aí, aos poucos, o valor da vida humana cede lugar ao desprezo e, uma vez tendo o nosso pensamento traumatizado pelo medo, iremos sem demora recorrer à pena de morte, às prisões perpétuas, na tentativa de afastar inimigos, como se fosse humanamente possível afastar todo o mal que existe, acorrentá-lo, mantê-lo longe, quando ele muitas vezes reside em nós e dentro daqueles que estão ao nosso lado. Ingenuidade.

Se, contudo, fazemos como Jesus nos disse, nos expomos, humanizamos a disputa e insistimos no bem, ainda que feridos, veremos que o homem em si não é o maior problema e que muitas vezes somos os maiores responsáveis pelos nossos próprios conflitos. Diálogo, atenção, investimento no outro, repartição de cargas, ações afirmativas que de alguma forma busquem as reais causas das nossas lutas, da violência, podem revelar verdades mais profundas e caminhos mais eficazes que os que o medo indica. O fim da violência, segundo Jesus, reside aí.

O medo de ferir-se, a recusa em sacrificar-se, em algum ponto, destrói a vida em comum. Leva a falência casamentos. Destrói amizades. Encerra oportunidades. Mas o amor, ah, só o amor, aprendido nesta perspectiva da encarnação de uma nova mente e uma nova postura diante da vida, através desta Palavra, nos leva à “superação de uma multidão de erros”. Suportar um tapa na cara, como a Bíblia sugere, pode evitar uma contenda maior futuramente e, quem sabe, nos fazer credores de uma dívida impagável, porque não há nada mais nobre que o perdão que nasce em meio a dor. Foi assim que Ele, Jesus, clamou:

“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.

Sobre o Perdão e a Culpa

novembro 15, 2011

Todos os dias eu me sentia arrastado pelos cabelos até o centro do pátio de terra. Rosto espremido sobre o chão quente, meus acusadores furiosamente brabando “morte”, “pedras”. Assim os erros da juventude, os excessos, a vida oscilante, me faziam curvar, feriam-me, envergonhavam-me, usando tantas vezes a própria Palavra como sentença: “seus pecados fazem separação entre você e Deus”.

Então aprendi sobre a Graça, sobre o Dom Imerecido, sobre o que é sinceramente desejar não errar mais. Em Paulo, conheci o conceito do “mal que não quero fazer”. Em Jesus, aprendi o conceito do “venham a mim os que estão cansados e sobrecarregados”. Todos os dias, daí em diante, quando erro, ouço Sua voz dizendo…

“Eu também não te condeno. Vá”.

Lições #Confessar

novembro 15, 2011

“Aquele que diz não ter pecado é mentiroso… Porque o amor encobre uma multidão de erros… confessem seus sentimentos e vivências uns aos outros… aconselhem-se mutuamente…”

Me lembro daquela conhecida figura da história do cristianismo do século XVI no Brasil, os Santos de Pau Oco. As imagens de santos eram usadas para transportar ouro contrabandeado. Engraçado como apesar de os fatos serem outros, o mundo é o mesmo. O homem tem a tendência de usar a imagem exterior de bondade, virtude, para encobrir erros. É o mito do Éden, quando homem e mulher usam vestes para encobrir a vergonha.

O silêncio dos nossos defeitos oprime e constrange nossos “irmãos”, impondo um intransponível obstáculo ao “dividir”, ao ouvir o outro. Ninguém quer expor suas falhas, compará-las, consolá-las mutuamente. Queremos, isso sim, manter o “perfil” (muito usado na internet) onde só constam qualidades e atributos. Assim nasce a hipocrisia no seio da religião, quando as normas do “certo-errado” sobrepõem-se à sinceridade.

Encerro com Sun Tzu, em A Arte da Guerra:

“Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perigo de derrota;para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou para a derrota serão iguais;aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio, será derrotado em todas as batalhas”