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Ser Cristão devia Incomodar

julho 4, 2013

Não sei qual foi a última vez que ouvi alguém dizer que perdeu o sono preocupado com os problemas de um estranho. Não sei qual foi a última vez que vi alguém perder o apetite ao ver mendigos catando no lixo o que comer. Não sei se já vi alguém dividir mais do que o extremamente supérfluo com um pobre. Poucas vezes vejo o mal ser devolvido com o bem. Ser cristão devia incomodar.

Ser cristão devia ser uma necessidade mais urgente que ajuntar dinheiro, consumir. Mas o apelo do TER é maior que a vontade de SER. Ser cristão devia incomodar.

O fato de não termos certas respostas, não sabermos abraçar o diferente (mesmo que reprovando algo em si), nem curar o mundo de suas enfermidades, o fato de vivermos uma comunidade de relações superficiais, devia nos deixar perplexos, indignados com nós mesmos. Ser cristão não é ser mais um. Era pra estarmos dando o exemplo. Mostrando como se deve amar, ensinar, viver. E se estamos deixando a desejar, isso devia nos incomodar.

Ser cristão não se aproxima em nada da maior parte das associações que se faz a isso. Prosperidade, disputa de poder, enriquecimento e manipulação. Isto são inverdades. Distorções da verdade. E não há ninguém que seja capaz de desmentir essa história mal contada, representada por tantos falsos mestres, divulgadores de uma “fé” suicida, controversa e incoerente.  Isso devia nos incomodar. Profundamente.

Ser cristão, claro, devia ser uma grande alegria para quem já teve experiências reais de transformação. Mas, sobretudo, diante do mundo, devia desencadear uma dor especial, como a preocupação das mães para com seus filhos. Uma dor vigilante. Uma dor intercessora. Dor pelo zelo. E esta dor, como dores de parto, devia nos tornar pessoas melhores.

Quem somos. Quem não somos.

junho 7, 2011

Não somos cristãos. Somos o relógio moderno. Somos a soma das horas de trabalho cumpridas diligentemente, mais o tempo que levamos nos percursos que fazemos (sempre com pressa), mais o tempo que gastamos em entretenimento, mais o tempo que investimos em nós mesmos, ou seja, somos um cronograma, em que a espiritualidade e as questões transcendentais, por sinal, contam com uma parcela medíocre do todo. Não somos cristãos. Não buscamos com primazia a realização prática de uma consciência profunda de significado, que nos daria uma única noção de tempo, um alfa e um omega. Alfa: Jesus morreu e ressuscitou e ali começa a correr o tempo para nós, tempo de arrependimento e de busca, interior e sobrenatural, de retorno a Deus. Omega: o mesmo Jesus disse que viria novamente, num advento de propósitos sem conta, para selar nossa aliança. Se fôssemos cristãos, nossos relógios só marcariam estes dois momentos. Nossas preocupações, logo, seriam programadas cronologicamente por eles.

Não somos cristãos. Somos cidadãos do mundo. E como cidadãos, vivemos imersos, aconchegados e em uma relação diretamente proporcional de decadência, não só de valores, mas também de consciência. Explicamos, através da afirmação bélica de democracias, através de barganhas humanísticas a que chamamos “direitos humanos”, de esquemas infantis de “desenvolvimento sustentável”, que podemos nos governar sozinhos. Que somos donos do pedaço. E o pedaço é este mundo azul, girando em seu próprio eixo, previsível e aparentemente governável, mas que estaria bem melhor sem nossa presença aí. Se fôssemos cristãos, aprenderíamos como nossos bichinhos de estimação uma lição simples de humildade: a criatura não tem condições de se auto-governar. Se fôssemos cristãos, saberíamos que “governo de Deus” em nenhum sentido significa “política”. Que somos cidadãos de uma outra pátria, e assim, devemos ser identificados. Se fôssemos cristãos, seríamos atípicos, causariamos estranhamento nas ruas, despertariamos curiosidade sobre “vida além da terra”, “vida além da morte”, mas somos mundanos demais pra isso. Passamos desapercebidos.

 Não somos cristãos. Somos o patrimônio. Somos um fundo de investimentos em ferro e carne. Distante dos discursos, cada um ajunta o que pode desses materiais preciosos no porão. “Tempos difíceis estão vindo”, pressagiamos, sem perceber o quanto estamos certos e enganados ao mesmo tempo. Somos o que podemos realizar, a profissão que desempenhamos, a família que construímos, a herança que deixamos. Nossa matéria emocional e psicológica  tem a mesma consistência da nossa “estabilidade financeira”. Somos o que podemos ter. E aos poucos vamos dando preferência às coisas, às instituições de utilidades, à tradição dos prédios e negócios, esquecendo que éramos pessoas. Se fôssemos cristãos, saberíamos perguntar primeiro “o que posso fazer por você?”, antes de perguntar “o que você pode fazer por…?”. Saberíamos enxergar no mendigo, gente, e não um fracasso social, veja. Teríamos uma escala de valores invertida e não estereotipada. Teríamos outros objetivos para realizar nesses curtos 70 anos médios de vida que dispomos (com sorte) que não casa-trabalho-filantropia. Não nos mobilizariamos para acabar com a pobreza material no mundo. Isso faríamos dividindo tudo o que temos com os pobres. Nos mobilizariamos radicalmente para debelar toda “fome existencial” que há, e que não faz distinção entre classe social. Se fôssemos cristãos, a palavra “prosperidade” para nós significaria tudo, menos bens materiais.

Não somos cristãos. Somos profetas de uma nova religião: o Egocentrismo. E como tais, apregoamos que a única e determinante pessoa que realmente importa na relação com qualquer outra coisa é: o eu. Pronunciamos assim, o maior dos absurdos. Porque a palavra relação traz como radical de significado a figura do outro. Pressupõe e impõe o outro. Este outro que não toleramos, logo, ignoramos. Ignoramos sem muita cerimônia. Existem certos meninos de rua praticamente invisíveis. Existem certos idosos, certos depressivos, certos homossexuais que preferiamos que não existissem. Perdemos o “trato”, o tato, com quem é diferente ou nunca o tivemos? Quando foi que começamos a perder os sentidos? Fomos sempre assim, inábeis para ajudar? Os profetas do Egocentrismo tem os braços curtos demais, suas mãos jamais serão plenamente estendidas. Ouvidos defeituosos, olhos prejudicados pelas traves e obstáculos do “meu primeiro”. Cultivar amizades é um sacrifício pra nós. Só mesmo as convenientes. E nos filiamos apenas àquilo que possa nos promover algum “rendimento pessoal positivo”. Doar é coisa de instituição de caridade. Doar-se, então, nem se fale. Se fôssemos cristãos teríamos no outro a medida de Deus, sabendo que “toda vez que você der de comer a um desses pequeninos, está fazendo isto a mim”. Se fôssemos cristãos, teríamos um quarto de hóspedes na nossa alma, não simplesmente nas construções. Saberíamos aconselhar sabiamente, entenderíamos o outro profundamente e seríamos precisos como Jesus em palavras e cura. Poderíamos encher a boca e dizer: “venham todos que estão cansados e sobrecarregados… nós ajudaremos”.

Não somos cristão. Somos uma sombra do que deveríamos ser e o nome não mais nos cabe. No início, estávamos nele, mas “todos pecaram” e aí estão nossos pecados.  Auto-conhecimento e arrependimento é a alternativa salvadora para uma vida verdadeiramente cristã. Espero que não sejamos, sobretudo, orgulhosos demais pra isto.