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Ah, Pai, tantos disfarces !

maio 4, 2010

Os dois no jardim sentindo-se culpados, sujos, envergonhados. Não querem que Deus os veja, não dessa forma. Então cobrem a alma com roupas improvisadas, folhas largas para tapar o medo, o orgulho e a vergonha.

Antes de dormir, a menina se ajoelha pra orar. Ela tem um olho roxo na alma, resultado da violência e do desrespeito do seu namorado e de seus amigos, que a forçam a fazer coisas que ela não quer fazer, invadindo sem remorço sua liberdade e arruinando muitos sonhos. Mas ela não quer mostrar o olho roxo ao Senhor. Tem medo do que Ele pode dizer. Ela teme a sua severidade, então, antes de orar, põe um óculos escuro no rosto da sua alma, e vai até Ele assim, disfarçada.

2o anos, ele faz de tudo pra ser aceito. Sinceramente, ele ainda é uma criança, sua alma ainda tem a forma de um menino crescido, magrelo, cabeludo e despreocupado com a aparência. Mas os outros exigem que ele seja outra pessoa, que se comporte de modo diferente, e então ele se veste com músculos e despe o peito, para exibir aos seus “amigos-juízes” seu eu-aceitação. No rosto, ele põe uma máscara sedutora e um sorriso falso de borracha.

Ela caminha com dificuldade, está grávida, mas não quer que Deus ou a igreja saibam. “O que eles iriam dizer?”, pensa. Agora que está mais sensível e deveria vestir roupas leves, ela se esconde e sufoca com casacos longos, para esconder o corpo, e um miserável vestido apertado, que disfarça a evolução da gravidez.

Ele, no fundo, não se sente homem. Não se entende como homem, não tem nenhum referencial positivo que o indique nessa direção, nem tem vontade de seguir a orientação do Senhor. Mas ele sabe que terá que sair de casa, e que lá fora tudo é vigiado e condenado, então ele se veste de homem, um homem indiferente, mas homem. Ensaia até comentários típicos, e cobre com adereços de homem (chapéus, gravatas, cachecóis) os outros adereços que sua alma , profundamente, usa. Vestido assim, ninguém diria o que se passa lá dentro.

Eles correm. A música não pode parar, porque o silêncio significa solidão e a solidão é insuportável, reveladora. A alma inquieta pede preenchimento. Mas eles não dão ouvidos a ela. Vestem suas fantasias coloridas e sensuais e festejam, festejam, festejam. E por dentro a alma clama: “Tomara que o Carnaval dure pra sempre, porque se não…”.

Inseguro, frustrado, todos os dias ele sobe ao púlpito, ou à plataforma e prega, canta, dirige, ensina, e quem o vê nota o terno alinhado, a bata branca, o sorriso carismático, as mãos limpas. Momentos antes, contudo, foram horas e horas de auto-mutilação, porque sua alma está se auto-rejeitando, lutando pra expelir o produto daquele coração amargo, daquela natureza irascível, animal, frustrada. O jeito é abotoar mais apertado. Tomara que ninguém perceba. Tomara que o Senhor não perceba.

Ah, se eles soubessem. Pra que tanto esforço, tanta dor, tantos disfarces? Aos olhos de Deus, todos nós, como no Éden, ainda estamos nus.

“porque o Senhor não vê como o homem vê, porque o homem olha para o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (na bíblia, em 1 samuel, 16:7)

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