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Jesus de Poucos.

janeiro 26, 2011

“Sabendo Jesus que haviam de vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, 

retirou-se”.

Não é uma flagrante contradição? Não só de todo um propósito que pretendia o cristianismo em seus primeiros dias, de captar adeptos, mas também a toda uma sistemática religiosa, midiática, iconoclasta, dos grandes ajuntamentos de hoje? A fé por atacado não se harmoniza com este pequeno fragmento narrativo esquecido por muitos na história de Jesus. Assim como tantas outras ocasiões em que Ele mesmo realizava milagres e dizia, para a surpresa de quem lê, “não revele isto a ninguém, ainda não é a hora”. Nos parece contraditório porque pra nós todo milagre deve ser divulgado, não é verdade? Assim como todo bom conselheiro deve almejar, como realização máxima do seu propósito de existência, atingir as multidões, as grandes massas.

Partindo desse pressuposto que eu comecei a minha pesquisa pela vida de Jesus, esperando encontrar relatos sobre um líder religioso que reunisse consigo todo um sindicato de seguidores fiéis e determinados, bem treinados, influentes. Uns 100. Mas sua história me surpreende: ele escolhe doze. Anônimos doze. A resposta razoável para este comportamento pouco estratégico para um “militante político-religioso” é que Jesus não iria simplesmente captar pessoas, seduzí-las com Ideologia. Ele estava interessado em alterar profundamente seu modo de vida. E ele iria atingir a humanidade através de poucos.

Também imaginei que, diante da máxima “Deus é para todos”, ele jamais iria se negar a atender pedidos, o que poderia certamente prejudicar sua “campanha filosófica particular”. Que jamais iria impor condições a seus seguidores, que em hipótese alguma deixaria de expor suas convicções quando houvesse boa ocasião, e dizendo da forma mais clara possível: que nunca dispensaria ninguém.  Mas o que é aquilo que encontramos nos livros? Jesus dizendo “Quer me seguir? Negue-se!”, deixando de curar a muitos (por falta de fé?), ou sendo enfático com seus poucos discípulos remanescentes ao perguntar “E vocês? Também não vão partir?” numa clara confissão de que Ele não era quem a grande maioria esperava que fosse (um reformador, um conquistador), e a mais surpreende e exasperadora falha estratégica do “mestre dos mestres” diante da possibilidade de ser inocentado por Pilatos das acusações que o levaram à morte: seu silêncio.  

A contradição era tão grande, tão profundamente evidente com este Cristianismo que está aí, que percebi formarem-se dois polos opostos: O de Jesus. E o estranho a ele. Porque Jesus, aquele homem intensamente tomado pela presença de Deus, ele era de poucos. Apesar de ensinar a multidões (que o buscavam, não o contrário), Ele se detinha e atendia realidades individuais que passariam despercebidos pelos outros. Veja a mulher do fluxo de sangue, o cego bartimeu, Zaqueu, a mulher flagrada em adultério, a mulher samaritana, e tantos outros.

Jesus não fazia distinções nem tinha preconceitos. O que o tornava A TODOS ACESSÍVEL. Mas ele não via a humanidade como um todo, nem pretendia desenvolver um relacionamento midiático, impessoal, com seus seguidores. Ele deixou uma marca: o amor ao próximo. Literalmente. E assim ele amou tão intensamente aqueles homens a quem escolheu que deu a sua vida por eles, e em consequência por todo o gênero. Mas não amou o gênero, amou a pessoas reais, com nome, personalidade e histórias próprias. Assim, não foi preciso que ele ressucitasse diante dos olhos de todos, que fosse proclamado rei sobre os Judeus ou mesmo sobre o Império Romano, nem que seus milagres fossem divulgados “ao vivo”. Aquelas experiências pessoais foram provas de amor pessoal. E só nos ensinam que amar a Deus não é buscar uma experiência coletiva com Ele, mas buscá-lo com intimidade.

Ficamos com o toque, a atenção e a presença de Jesus, que importava-se em “cear” com aqueles que amava. Não multidões para seguí-lo, apertá-lo, assediá-lo, mas companheiros de Barco, com quem se poderia rir, chorar, crescer, viver.

E como um pouco de fermento atinge toda a massa,

pouco a pouco,

Ele conquistou com amor o mundo inteiro.

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