A Novidade

Nós, nós mesmos , os homens , amamos a novidade . Aliás, veneramos tanto o novo ,que às vezes fazemos de tudo para sê-lo. É um tal de muda isso , troca aquilo, põe aquilo outro. O barato é que o novo , em regra , é bem vindo.
​Desconfio que esta volúpia pelo novo é dada para nós desde o primeiro dia em que nos descobrimos como seres existentes. Naquele momento, onde nossas mães nos expelem para fora dos seus ventres, a novidade aparece. Até ali , tudo era normal. A placenta estava sempre no mesmo lugar, o útero sempre foi daquele jeito, enfim , tudo não era novo.
​Até que vem esse “boom”, e nós descobrimos que tudo era deliciosamente efêmero naquela vida. Agora existe outra realidade. Os outros nos olham , nos medem , riem, fazem graça , e , diante da primeira grande novidade da nossa existência nós choramos copiosamente. Choramos porque a novidade do ar entrando em nossos pulmões nos agride (literalmente) por dentro.
​Mas as novidades não param por aí. Descobrimos que, passados alguns meses , podemos nos locomover sem precisar dos outros. Inicialmente de quatro, como que vistoriando tudo ao nosso redor, posteriormente nos colocamos de pé , e aí sim, tudo é mais novo do que nunca. Podemos alcançar o outrora inalcançável, corremos e desfrutamos das primeiras quedas , e conseqüentemente , das primeiras lições práticas acerca dos nossos limites. O fato de se tornar bípede divide barreiras em nossas vidas , fulmina distâncias e aguça em nós a busca pelo novo.
​Como se não bastasse andar com apenas dois membros , descobrimos que somos capazes de falar, articular palavras e estabelecer comunicação com outros iguais a nós . Ao tomar posse desta mais “nova novidade” nos tornamos insuportavelmente tagarelas. Nunca mais deixaremos de falar. Esta novidade nos incendeia a alma, e falar passa a ser quase que compulsivo. Queremos nos comunicar, gostamos de falar , de sermos ouvidos , e de preferência por muitos. Comunicar passa a ser a maior novidade em nossa pequena existência.
​Caminhando nesta série de descobertas , deparamo-nos com outras novidades que perto daquelas podem ser consideradas menores, mas não de menor importância. Coisas do tipo ir a escola, a chegada de um irmão, as primeiras traquinagens, as brincadeiras e outras tantas que preenchem a nossa vida. Poderíamos aqui falar de tantas outras novidades que não mais sairíamos deste ponto da nossa discussão.
​Olhando a questão apenas sob o prisma das novidades andar e comunicar –se ,vemos quão grandes são os seus desdobramentos. Aquelas perninhas , antes tão curtinhas e inseguras, vão se firmando e tornando-se maiores ,nos levando paulatinamente a outros mundos até que nos tornemos crianças, adolescentes, jovens e velhos ….. . As palavras pronunciadas de maneira balbuciadas e confusas, são agora alvos da gramática, sintaxe, formalismos, retórica ….. . O certo é que as novidades que estão no porvir decorrem destas duas primeiras novidades. Ou seja, o nada ou o tudo que somos , é reflexo do que falamos e de onde estamos.
​Diante disto, para onde nos têm levado as nossos pernas? A nossa caminhada é sem sentido e as novidades cada vez mais enfadonhas. Aquelas primeiras sensações maravilhosas obtidas tantas vezes, agora se tornaram insossas? Queremos caminhar muitas vezes , mas a estrada é esburacada, feia , torta , e por isso nos é melhor ficar parados. Afinal, a inércia nunca prejudicou a ninguém e o máximo que pode acontecer é não acontecer nada, inclusive a magia da novidade. Ah!!! perninhas inquietas!!!!!
​E a nossa voz tem ecoado da mesma forma ? A nossa tagarelice moleca ainda nos trás novidades ? Ou falar se tornou perigoso? Somos reféns daquilo que falamos , e por isso, melhor é ficar calado – alguns diriam. A nossa falação se torna cada vez mais temerária já que o outro que nos ouve , é o outro. E o outro é sempre o outro e não eu. E tudo o que não sou eu não merece confiança,portanto eu não falo com o outro. A vivacidade da comunicação ,fruto de nossa volúpia por falar , se transformou em adversária, inimiga, e por isso deve ser evitada. Em caso de se falar, que se fale do outro. A novidade conseguida por este poderoso elo é debelada, arrefecida de maneira contumaz. Eu não falo , e com isso , o novo é algo tão próximo como as estrelas ou o sol. Sou apenas eu e as minhas convicções , que já não são novidades pra mim.
​Quero dizer que a novidade deve ser algo presente em nossa existência. Viver do que é velho , obsoleto e ultrapassado não é vida – é sobrevida. As marcas da novidade devem estar estampadas em nossa vivencia de maneira patente. Não consigo enxergar alguém que se escondeu em si mesmo e já não mais permite que seus pés sejam velozes e constantes , que da sua vida flua comunicação, contatos , elos.
Viver é novidade. Afinal, nenhum momento da vida é igual ao outro. Mas, tornar estes momentos novos, dentro da uma novidade diária é para aqueles cujos pés e bocas não se curvam diante do enfadonho e embrutecedor cotidiano .

Ande! Fale! Seja Novo!

Em Cristo,

Hugo Júnior

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