Archive for julho \20\UTC 2014

Economia do Ego

julho 20, 2014

Um dos piores efeitos da Inflação se chama indexação. Funciona assim: o que era considerado aumento, encarecimento, ontem, se torna o marco inicial hoje. Assim, os preços continuamente são reajustados e o sujeito vai se adaptando às novas exacerbações, sempre tendo como novo “normal” um limite cada vez maior e perdendo-se do preço “real”.

Isto porque somos da moda e nos adaptamos bem à efemeridade, dada a enorme importância que damos à vaidade e seus subprodutos no comportamento, na estética e na ética. No campo da Moral, temos dificuldade em ser consistentes e a indexação também existe. O que ontem era absurdo, hoje é padrão, mas com uma disfaçatês que assusta aos economistas. Os excessos se multiplicam, sem que ninguém registre que este “todo mundo faz” de hoje, um dia, já foi o fundo do poço.

O antídoto econômico para a inflação do ego é complexo. O individualismo hedônico tem muitas causas, mas suspeito que a principal seja nosso profundo sentimento de solidão. E ela é materialista e de um relativismo alucinador. Homens e mulheres que já não sabem como construir solidez e constância no amor. Filhos abandonados por pais individualistas e despreocupados. Seres humanos que, ao se distanciarem de Deus (“não é mais um ‘conceito’ necessário em pleno século XXI”, dizem), estão órfãos de significado e caminho. Veja, por mais peso que determinadas aquisições tenham, elas não são dotadas de calor humano. E quando não há verdades absolutas, até mesmo a própria vida pode acabar à disponibilidade da efêmera “felicidade”.

Por mais que o Egoísmo cresça, ele jamais poderá prover auto-suficiência e segurança. Pelo contrário, a tendência é a experimentação de um esvaziamento íntimo enorme, um “cair em si” de proporções cada vez mais dramáticas.

Somos o que somos. Relacionais, espirituais e dotados de tamanho potencial ético, ainda que latente, que podemos até inflacionar nossas verdades, mas nunca ignorar: quando se trata da economia da existência humana, todo excesso tem um preço.

O antídoto? Ah, sim. O antídoto é ter memória.

“Guarda estas minhas palavras”.

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Na Babilônia, Negar a Deus

julho 20, 2014

Ergueram um monumento à babilônica divindade. Seu nome é Patrimônio. A voz de autoridade decreta a escolha: ajoelhar-se ou perecer.

Mas veja só. Foi pensando na morte que os cristãos encontraram o sentido da vida. Não só porque há redenção eterna. Mas também porque não existe Humanidade distante de Significado. E não há nada no materialismo que nos traga significado mais profundo que Amar. Não há lucro em estar só, não há vantagem em cercar-se de bens e perder momentos, não há alegria em enriquecer para uma velhice tola, sem afetos, sem saudades, sem filhos e netos.

Não. Negar a Deus seria o mesmo que Negar-se, humanamente, intimamente. Ajoelhar perante o Patrimônio, para adorá-lo, seria mutilar uma existência essencialmente relacional, contemplativa, graciosa, desapegada, planejada para fruir, não possuir, e viver como os passarinhos que não semeiam nem ceifam, mas não padecem pelo cuidado de quem os sustenta. Seria baixar os olhos. Nunca mais ver um pôr-do-sol sem pressa ou culpa.

Por isso os cristãos optaram pelo perecimento, como santos. E confiaram a Deus suas preocupações com o futuro. Todos sabem como termina o conto: nem a lei, nem as chamas foram capazes de destruir este ideal. Intocados pela nova ordem e pelo fogo, os cristãos alcançaram a eternidade e, ainda hoje, escolhem não se curvar, porque crêem nas Palavras eternas:

Tudo mais passará. O amor é eterno.

A Novidade

julho 18, 2014

Nós, nós mesmos , os homens , amamos a novidade . Aliás, veneramos tanto o novo ,que às vezes fazemos de tudo para sê-lo. É um tal de muda isso , troca aquilo, põe aquilo outro. O barato é que o novo , em regra , é bem vindo.
​Desconfio que esta volúpia pelo novo é dada para nós desde o primeiro dia em que nos descobrimos como seres existentes. Naquele momento, onde nossas mães nos expelem para fora dos seus ventres, a novidade aparece. Até ali , tudo era normal. A placenta estava sempre no mesmo lugar, o útero sempre foi daquele jeito, enfim , tudo não era novo.
​Até que vem esse “boom”, e nós descobrimos que tudo era deliciosamente efêmero naquela vida. Agora existe outra realidade. Os outros nos olham , nos medem , riem, fazem graça , e , diante da primeira grande novidade da nossa existência nós choramos copiosamente. Choramos porque a novidade do ar entrando em nossos pulmões nos agride (literalmente) por dentro.
​Mas as novidades não param por aí. Descobrimos que, passados alguns meses , podemos nos locomover sem precisar dos outros. Inicialmente de quatro, como que vistoriando tudo ao nosso redor, posteriormente nos colocamos de pé , e aí sim, tudo é mais novo do que nunca. Podemos alcançar o outrora inalcançável, corremos e desfrutamos das primeiras quedas , e conseqüentemente , das primeiras lições práticas acerca dos nossos limites. O fato de se tornar bípede divide barreiras em nossas vidas , fulmina distâncias e aguça em nós a busca pelo novo.
​Como se não bastasse andar com apenas dois membros , descobrimos que somos capazes de falar, articular palavras e estabelecer comunicação com outros iguais a nós . Ao tomar posse desta mais “nova novidade” nos tornamos insuportavelmente tagarelas. Nunca mais deixaremos de falar. Esta novidade nos incendeia a alma, e falar passa a ser quase que compulsivo. Queremos nos comunicar, gostamos de falar , de sermos ouvidos , e de preferência por muitos. Comunicar passa a ser a maior novidade em nossa pequena existência.
​Caminhando nesta série de descobertas , deparamo-nos com outras novidades que perto daquelas podem ser consideradas menores, mas não de menor importância. Coisas do tipo ir a escola, a chegada de um irmão, as primeiras traquinagens, as brincadeiras e outras tantas que preenchem a nossa vida. Poderíamos aqui falar de tantas outras novidades que não mais sairíamos deste ponto da nossa discussão.
​Olhando a questão apenas sob o prisma das novidades andar e comunicar –se ,vemos quão grandes são os seus desdobramentos. Aquelas perninhas , antes tão curtinhas e inseguras, vão se firmando e tornando-se maiores ,nos levando paulatinamente a outros mundos até que nos tornemos crianças, adolescentes, jovens e velhos ….. . As palavras pronunciadas de maneira balbuciadas e confusas, são agora alvos da gramática, sintaxe, formalismos, retórica ….. . O certo é que as novidades que estão no porvir decorrem destas duas primeiras novidades. Ou seja, o nada ou o tudo que somos , é reflexo do que falamos e de onde estamos.
​Diante disto, para onde nos têm levado as nossos pernas? A nossa caminhada é sem sentido e as novidades cada vez mais enfadonhas. Aquelas primeiras sensações maravilhosas obtidas tantas vezes, agora se tornaram insossas? Queremos caminhar muitas vezes , mas a estrada é esburacada, feia , torta , e por isso nos é melhor ficar parados. Afinal, a inércia nunca prejudicou a ninguém e o máximo que pode acontecer é não acontecer nada, inclusive a magia da novidade. Ah!!! perninhas inquietas!!!!!
​E a nossa voz tem ecoado da mesma forma ? A nossa tagarelice moleca ainda nos trás novidades ? Ou falar se tornou perigoso? Somos reféns daquilo que falamos , e por isso, melhor é ficar calado – alguns diriam. A nossa falação se torna cada vez mais temerária já que o outro que nos ouve , é o outro. E o outro é sempre o outro e não eu. E tudo o que não sou eu não merece confiança,portanto eu não falo com o outro. A vivacidade da comunicação ,fruto de nossa volúpia por falar , se transformou em adversária, inimiga, e por isso deve ser evitada. Em caso de se falar, que se fale do outro. A novidade conseguida por este poderoso elo é debelada, arrefecida de maneira contumaz. Eu não falo , e com isso , o novo é algo tão próximo como as estrelas ou o sol. Sou apenas eu e as minhas convicções , que já não são novidades pra mim.
​Quero dizer que a novidade deve ser algo presente em nossa existência. Viver do que é velho , obsoleto e ultrapassado não é vida – é sobrevida. As marcas da novidade devem estar estampadas em nossa vivencia de maneira patente. Não consigo enxergar alguém que se escondeu em si mesmo e já não mais permite que seus pés sejam velozes e constantes , que da sua vida flua comunicação, contatos , elos.
Viver é novidade. Afinal, nenhum momento da vida é igual ao outro. Mas, tornar estes momentos novos, dentro da uma novidade diária é para aqueles cujos pés e bocas não se curvam diante do enfadonho e embrutecedor cotidiano .

Ande! Fale! Seja Novo!

Em Cristo,

Hugo Júnior

O Maior Dilema Humano: A Maçã ou a Eternidade

julho 6, 2014

Por esses dias me peguei desejando e querendo o Agora, intimamente, irresponsavelmente. Até orei a Deus para que ele interviesse sobre as circunstâncias e me desse, de bandeja, o bem imediato que desejava.

Engraçado como somos realmente, nós, pessoinhas pequenas desse mundinho finito, previsíveis. Isso facilita, de certa forma, a autocrítica. Pelo menos para as religiões, filosofias e pessoas que ainda estão dispostos a se propor críticas sérias e a aprender alguma coisa com elas, tentando acertar mais tarde.

Pois não é esse o maior dilema da Humanidade? Desde que caímos, sempre tendemos a escolher a Maçã, o bem imediato, a vantagem palpável, o objeto de consumo, o enriquecimento terreno, em detrimento daquilo que a Bíblia chama de “tesouros no céu”, que são incorruptíveis e durarão para sempre.

Vamos ser bem realistas, pra não pecar contra a consciência: amar não está na agenda contemporânea. Não no sentido cristão da Palavra, que seria sacrificar-se pela salvação, em todos os sentidos, do outro. E não é que o Amor é justamente uma dessas coisas de que falamos, eternas, segundo a mesma Bíblia?

Da próxima vez que eu me flagrar desejando vou, incontinenti, recolher a mão estendida e pensar:

E Se fossem as mãos de Jesus, para onde estariam estendidas?
Mais uma Coisa ou o Próximo?
A partir daí farei minha escolha.