Archive for julho \07\UTC 2013

A Favor e Contra

julho 7, 2013

Como cristão, eu me preocupo com o futuro da nossa humanidade. Minha vida e a vida de muita gente me preocupa. Principalmente porque sinto que as verdades que escolhi eleger como nortes da minha vida, as vezes, tem um imenso efeito constrangedor, até irritante, nos outros. Imagine o caso hipotético de uma discussão filosófica sobre a Mentira. Todo mundo sabe que não se pode mentir em juízo. Imagine, então, se num dado momento histórico a mentira vier a ser vista de maneira diferente. Como uma legítima forma de defesa. Como uma prática saudável. Um recurso imaginativo, criativo, viável no discurso e na prática. Traição, na relação a dois, já o é (em muitos casos, dizem os colunistas de revistas, pretensamente, científicas). Podemos não estar, então, divagando tanto. Veja que me ponho, por conta de minhas convicções, numa enrascada programada. Porque como um idealista eu sinto que não devo calar minha opinião com relação aos meus valores. Como um progressista acredito que devo tentar influenciar na tomada de decisões de minha comunidade. Mas eu me veria em grande apuro quando, ao me manifestar, fosse mal interpretado, taxado de moralista, intolerante, fundamentalista e tudo o mais, mesmo sabendo que eu sempre estive, ideologicamente, no mesmo lugar. Foi o mundo que “progrediu” e não me deu alternativas, senão a de me negar em acompanhá-lo. Sou A FAVOR das pessoas, e tranquilamente CONTRA determinados “avanços”. Acredito na consistência de determinados valores, ainda que muitos não consigam experimentá-los, circunstancialmente, por diversos motivos, e pelo maior deles, pela liberdade de autodeterminar-se.

Enquanto for livre para pensar e agir, espero ter forças para, mesmo mal interpretado e assumindo a priori a falibilidade humana inerente, manifestar meu completo respeito e amor ao próximo, que me levará, vez ou outra e mesmo que temendo represálias, a dizer humildemente:

Meu caro, não posso apoiá-lo desta vez, pois acredito que você está errado.

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Sociedade

julho 7, 2013

Engraçado como as palavras nos pregam peças, inadvertidamente. Se alguém diz que abriu uma empresa em “sociedade” com outra, logo se vê que esta pessoa firmou um compromisso, baseado em responsabilidades recíprocas, em colaborações ativas, constantes, inadiáveis, insubstituíveis, diante do objeto do negócio. O que assusta é ver como nós conseguimos ignorar que DEVEMOS à sociedade, justamente o pressuposto de sua existência: nossa participação. Como cristãos, então, o termo sociedade assume um viés ainda mais complexo, revelador. Somos parte de um grupo de pessoas que assumiu o compromisso de, vivendo juntas, usar os recursos que dispõem (tempo, dinheiro, habilidades pessoais, inteligência, valores) para construir um ambiente confortável, positivo, para viver. Se cremos que somos dotados pela graça de Deus de ferramentas de cura, edificação e inspiração de nossa realidade, de salvação de pessoas, não podemos nos omitir. Nos omitir diante desta sociedade seria o maior dos desfalques, o mais flagrante dos calotes, o furo mais vergonhoso que se viu. Pra finalizar, faço referência às palavras de Jesus, que disse: Pai, não peço que eles sejam tirados do mundo. Livra-os do mal. E nos dias de hoje, o mal se faz presente, sobretudo, quando conscientemente nos ausentamos.

Anda com Ele

julho 7, 2013

Violência. Impressiona pensar no que o homem é capaz. Além de ser capaz de ferir, tirar a vida, o ser humano ainda tem uma enorme capacidade para ferir a alma. Nós, que prezamos pela nossa segurança, aprendemos então, através do medo, a eleger os nossos inimigos. E a regra de ouro do medo é: fique longe deles. É a partir deste raciocínio que vamos refletir sobre como Jesus revolucionou a humanidade, tanto diante do medo, como através da esperança. Veja, se nós seguimos a lógica deste mundo individualista, nosso bem estar estará de tal modo acima da importância do outro que nos tornaremos, aos poucos, ilhas. Isto porque, nos últimos tempos, ninguém quer ferir-se, expor fraquezas, chorar abertamente. Nos escondemos sob máscaras insensíveis e nos afastamos daqueles que, do menor ao maior grau, nos ferem. E aí nos tornamos ilhas. Uma humanidade solitária, existencialmente esvaziada do outro.

O Cristianismo, contudo, tem como fundamento o amor. Amar ao próximo como a si mesmo. Amar amigos. Interceder pelos inimigos. Recorro aos dois textos mais chocantes a respeito do tema:

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado”. “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos (ver Bíblia, livro de Mateus, cap. 5)”.

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, e não os amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram (…) Não retribuam a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos. Façam todo o possível para viver em paz com todos. Amados, nunca procurem vingar-se (…) mas pelo contrário, Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem (v. Bíblia, livro de Romanos, cap. 12)”.

Nas palavras de Jesus e de Paulo, qualquer deliberada devolução de violência é insustentável do ponto de vista cristão. E isto para nós, cidadãos deste mundo, onde se clama por “justiça” e se luta tão ativamente contra a violência urbana, pode parecer loucura, mas pense. Você consegue ver o potencial revolucionário que um princípio como este tem se for diligentemente praticado? O poder de encerrar guerras históricas, de pacificar povos, de por ordem no caos do ódio humano. Nós só precisamos entender que um cabo-de-guerra só é possível quando os dois lados tencionam vencer através da força, através da dominação do outro, em revelia a suas necessidades. E as vezes, mesmo o lado “vencedor” experimenta perdas tão profundas que o valor em si da disputa se perde.

A intensa verdade reside, pra mim, na sentença: “anda com ele”.

Quando isolamos nossos inimigos, quando nos entrincheiramos, polarizamos a disputa e confundimos a violência em si com o ser humano em si. Aí, aos poucos, o valor da vida humana cede lugar ao desprezo e, uma vez tendo o nosso pensamento traumatizado pelo medo, iremos sem demora recorrer à pena de morte, às prisões perpétuas, na tentativa de afastar inimigos, como se fosse humanamente possível afastar todo o mal que existe, acorrentá-lo, mantê-lo longe, quando ele muitas vezes reside em nós e dentro daqueles que estão ao nosso lado. Ingenuidade.

Se, contudo, fazemos como Jesus nos disse, nos expomos, humanizamos a disputa e insistimos no bem, ainda que feridos, veremos que o homem em si não é o maior problema e que muitas vezes somos os maiores responsáveis pelos nossos próprios conflitos. Diálogo, atenção, investimento no outro, repartição de cargas, ações afirmativas que de alguma forma busquem as reais causas das nossas lutas, da violência, podem revelar verdades mais profundas e caminhos mais eficazes que os que o medo indica. O fim da violência, segundo Jesus, reside aí.

O medo de ferir-se, a recusa em sacrificar-se, em algum ponto, destrói a vida em comum. Leva a falência casamentos. Destrói amizades. Encerra oportunidades. Mas o amor, ah, só o amor, aprendido nesta perspectiva da encarnação de uma nova mente e uma nova postura diante da vida, através desta Palavra, nos leva à “superação de uma multidão de erros”. Suportar um tapa na cara, como a Bíblia sugere, pode evitar uma contenda maior futuramente e, quem sabe, nos fazer credores de uma dívida impagável, porque não há nada mais nobre que o perdão que nasce em meio a dor. Foi assim que Ele, Jesus, clamou:

“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.

Ser Cristão devia Incomodar

julho 4, 2013

Não sei qual foi a última vez que ouvi alguém dizer que perdeu o sono preocupado com os problemas de um estranho. Não sei qual foi a última vez que vi alguém perder o apetite ao ver mendigos catando no lixo o que comer. Não sei se já vi alguém dividir mais do que o extremamente supérfluo com um pobre. Poucas vezes vejo o mal ser devolvido com o bem. Ser cristão devia incomodar.

Ser cristão devia ser uma necessidade mais urgente que ajuntar dinheiro, consumir. Mas o apelo do TER é maior que a vontade de SER. Ser cristão devia incomodar.

O fato de não termos certas respostas, não sabermos abraçar o diferente (mesmo que reprovando algo em si), nem curar o mundo de suas enfermidades, o fato de vivermos uma comunidade de relações superficiais, devia nos deixar perplexos, indignados com nós mesmos. Ser cristão não é ser mais um. Era pra estarmos dando o exemplo. Mostrando como se deve amar, ensinar, viver. E se estamos deixando a desejar, isso devia nos incomodar.

Ser cristão não se aproxima em nada da maior parte das associações que se faz a isso. Prosperidade, disputa de poder, enriquecimento e manipulação. Isto são inverdades. Distorções da verdade. E não há ninguém que seja capaz de desmentir essa história mal contada, representada por tantos falsos mestres, divulgadores de uma “fé” suicida, controversa e incoerente.  Isso devia nos incomodar. Profundamente.

Ser cristão, claro, devia ser uma grande alegria para quem já teve experiências reais de transformação. Mas, sobretudo, diante do mundo, devia desencadear uma dor especial, como a preocupação das mães para com seus filhos. Uma dor vigilante. Uma dor intercessora. Dor pelo zelo. E esta dor, como dores de parto, devia nos tornar pessoas melhores.

Cegueira

julho 4, 2013

Perder a visão pode ser um grande inconveniente. Um claro e grave empecilho no cotidiano. Mas existe coisa pior. Pior que a cegueira, é a incapacidade de julgar o que se vê. A incapacidade de tomar pé da miséria do mundo. Pior que a cegueira, é a megalomania de sempre enxergar qualidades em si, nunca defeitos. É ver no espelho sempre uma pessoa idônea. Desmentir a decadência patente, alegar ilusão de ótica, erro de interpretação. E o orgulho, a incoerência, a intencional rotina desencaminhada, desnorteada, é pior que chorar lágrimas de sangue, pior que areia, cal,  nas vistas. Quando o problema está nos olhos, ainda se pode contar com os outros sentidos. O problema mesmo é quando o centro dos sentidos se corrompe. Quando o problema é a cegueira, alguém ainda poderá ajudá-lo a aprender, a ler, a conhecer o mundo. Se o defeito, contudo, está na razão, aí então, a verdade perde sua claridade, aquela claridade que se nota ainda que de olhos fechados.

Está escrito: Se teu olho te contamina, renuncia a ele. Mas é bom dizer: O mesmo vale para o Caráter.

Tesouros

julho 4, 2013

Me parece que estamos sendo pouco produtivos. Aliás, estamos tendo prejuízo nos nossos negócios. Nosso lucro é minguado, volátil. Nosso crédito é escasso. Ninguém está disposto a financiar nossas causas. Somos trabalhadores de um trabalho roubado antes mesmo de estar completo. Os abusos corroem nossos salários. E sobre o que poupamos pesam impostos, taxas e outros penduricalhos. Ficamos pobres. Vivemos à míngua da vida que almejamos.

E tudo isto porque nos esquecemos. Isto mesmo, o sol nasce e se põe, inúmeras vezes por sobre nossas cabeças, e nos esquecemos, ignoramos, os conselhos antigos:

“Porque os filhos são a herança do Senhor”, “melhor adquirir sabedoria que o ouro”. “Com a sabedoria se constrói a casa” e “ser estimado é melhor que riqueza e ouro”. “Mais vale ter um bom nome do que muitas riquezas”. Por isso “emprega tudo o que possuis na aquisição de entendimento”, “pedi, e dar-se-vos-á”. “Deus dá a sabedoria”. “Não acumulem tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e os ladrões roubam”. “Acumulem tesouros no céu”, porque “onde estiver o seu tesouro, aí estará o seu coração”.

É isto. Tesouros, então, são conhecimento, relacionamentos e uma vida íntegra e respeitável. Estamos no negócio errado.  Encerro com uma última recordação, uma história cuja lição não poderia ser mais clara:

“Um homem rico tinha produzido com abundância; E ele pensava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus (v. Bíblia, em Lucas 12)”.