Archive for junho \20\UTC 2011

A Fé de um Homem.

junho 20, 2011

A Crença de um homem pode levá-lo a muitos lugares. Sim, Crer por si só não é suficiente, nem garantia de que alguém atinja a Deus. É preciso crer, sim, mas não crer em um objeto obscuro ou indeterminado, que não se dê a conhecer, que não responda (ou precise de interlocutores), que não apresente um “sentido de significado”. Isto é credulidade. A credulidade é a Fé esvaziada de Sentido. A Fé pressupõe uma intensidade positiva inerente, como uma virtude que se comunica com um “transcendente bem”. Engraçado o que dizem a respeito da Fé, injustamente. A Fé nunca promoveu um desvalor. Já a credulidade: motivou inúmeros morticínios, incentivou mutilações, deliberou tragédias. A Fé, ao contrário do que se diz (de que é um terreno infértil de idéias, “quem muito crê pouco pensa”), é o único ponto de encontro possível entre a razão e Deus. Por isso que quem crê, por mais que o diga, não irá conseguir explicá-lo. Testemunhá-lo sim, ou seja, narrar suas impressões, tentando promover interesse experimental, mas explicá-lo, definí-lo, nomeá-lo jamais. A Fé, então, se torna uma virtude exclusiva daqueles que, depois de muito refletir, passem a crer que algo assim é possível, que tamanho bem, gratuita e naturalmente, possa fazer parte do real, a tal ponto que represente o significado da vida aqui, desta pequena vida que temos.  O que pode ser mais forte que o ódio senão a compaixão? O que pode ser mais forte que o determinismo caótico senão a Salvação? O que pode ser mais forte que a morte senão a vida? A Fé se revela na certeza do que chamados de amor, do que chamamos de Deus, do que chamamos de eternidade. E as consequências desta Fé em forma de convicção, sim, podem de fato transformar a existência a partir da “simples certeza”. Por isso mesmo a Fé sempre parecerá, aos olhos do racionalismo, a alternativa mais improvável. Mas aos olhos da razão que crê, a Fé será, como sempre foi, a única alternativa possível. A Crença de um homem pode levá-lo a muitos lugares. A Fé de um Homem dará a ele a visão de que, esteja onde estiver, ele jamais estará perdido.

“E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele”.

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Quem somos. Quem não somos.

junho 7, 2011

Não somos cristãos. Somos o relógio moderno. Somos a soma das horas de trabalho cumpridas diligentemente, mais o tempo que levamos nos percursos que fazemos (sempre com pressa), mais o tempo que gastamos em entretenimento, mais o tempo que investimos em nós mesmos, ou seja, somos um cronograma, em que a espiritualidade e as questões transcendentais, por sinal, contam com uma parcela medíocre do todo. Não somos cristãos. Não buscamos com primazia a realização prática de uma consciência profunda de significado, que nos daria uma única noção de tempo, um alfa e um omega. Alfa: Jesus morreu e ressuscitou e ali começa a correr o tempo para nós, tempo de arrependimento e de busca, interior e sobrenatural, de retorno a Deus. Omega: o mesmo Jesus disse que viria novamente, num advento de propósitos sem conta, para selar nossa aliança. Se fôssemos cristãos, nossos relógios só marcariam estes dois momentos. Nossas preocupações, logo, seriam programadas cronologicamente por eles.

Não somos cristãos. Somos cidadãos do mundo. E como cidadãos, vivemos imersos, aconchegados e em uma relação diretamente proporcional de decadência, não só de valores, mas também de consciência. Explicamos, através da afirmação bélica de democracias, através de barganhas humanísticas a que chamamos “direitos humanos”, de esquemas infantis de “desenvolvimento sustentável”, que podemos nos governar sozinhos. Que somos donos do pedaço. E o pedaço é este mundo azul, girando em seu próprio eixo, previsível e aparentemente governável, mas que estaria bem melhor sem nossa presença aí. Se fôssemos cristãos, aprenderíamos como nossos bichinhos de estimação uma lição simples de humildade: a criatura não tem condições de se auto-governar. Se fôssemos cristãos, saberíamos que “governo de Deus” em nenhum sentido significa “política”. Que somos cidadãos de uma outra pátria, e assim, devemos ser identificados. Se fôssemos cristãos, seríamos atípicos, causariamos estranhamento nas ruas, despertariamos curiosidade sobre “vida além da terra”, “vida além da morte”, mas somos mundanos demais pra isso. Passamos desapercebidos.

 Não somos cristãos. Somos o patrimônio. Somos um fundo de investimentos em ferro e carne. Distante dos discursos, cada um ajunta o que pode desses materiais preciosos no porão. “Tempos difíceis estão vindo”, pressagiamos, sem perceber o quanto estamos certos e enganados ao mesmo tempo. Somos o que podemos realizar, a profissão que desempenhamos, a família que construímos, a herança que deixamos. Nossa matéria emocional e psicológica  tem a mesma consistência da nossa “estabilidade financeira”. Somos o que podemos ter. E aos poucos vamos dando preferência às coisas, às instituições de utilidades, à tradição dos prédios e negócios, esquecendo que éramos pessoas. Se fôssemos cristãos, saberíamos perguntar primeiro “o que posso fazer por você?”, antes de perguntar “o que você pode fazer por…?”. Saberíamos enxergar no mendigo, gente, e não um fracasso social, veja. Teríamos uma escala de valores invertida e não estereotipada. Teríamos outros objetivos para realizar nesses curtos 70 anos médios de vida que dispomos (com sorte) que não casa-trabalho-filantropia. Não nos mobilizariamos para acabar com a pobreza material no mundo. Isso faríamos dividindo tudo o que temos com os pobres. Nos mobilizariamos radicalmente para debelar toda “fome existencial” que há, e que não faz distinção entre classe social. Se fôssemos cristãos, a palavra “prosperidade” para nós significaria tudo, menos bens materiais.

Não somos cristãos. Somos profetas de uma nova religião: o Egocentrismo. E como tais, apregoamos que a única e determinante pessoa que realmente importa na relação com qualquer outra coisa é: o eu. Pronunciamos assim, o maior dos absurdos. Porque a palavra relação traz como radical de significado a figura do outro. Pressupõe e impõe o outro. Este outro que não toleramos, logo, ignoramos. Ignoramos sem muita cerimônia. Existem certos meninos de rua praticamente invisíveis. Existem certos idosos, certos depressivos, certos homossexuais que preferiamos que não existissem. Perdemos o “trato”, o tato, com quem é diferente ou nunca o tivemos? Quando foi que começamos a perder os sentidos? Fomos sempre assim, inábeis para ajudar? Os profetas do Egocentrismo tem os braços curtos demais, suas mãos jamais serão plenamente estendidas. Ouvidos defeituosos, olhos prejudicados pelas traves e obstáculos do “meu primeiro”. Cultivar amizades é um sacrifício pra nós. Só mesmo as convenientes. E nos filiamos apenas àquilo que possa nos promover algum “rendimento pessoal positivo”. Doar é coisa de instituição de caridade. Doar-se, então, nem se fale. Se fôssemos cristãos teríamos no outro a medida de Deus, sabendo que “toda vez que você der de comer a um desses pequeninos, está fazendo isto a mim”. Se fôssemos cristãos, teríamos um quarto de hóspedes na nossa alma, não simplesmente nas construções. Saberíamos aconselhar sabiamente, entenderíamos o outro profundamente e seríamos precisos como Jesus em palavras e cura. Poderíamos encher a boca e dizer: “venham todos que estão cansados e sobrecarregados… nós ajudaremos”.

Não somos cristão. Somos uma sombra do que deveríamos ser e o nome não mais nos cabe. No início, estávamos nele, mas “todos pecaram” e aí estão nossos pecados.  Auto-conhecimento e arrependimento é a alternativa salvadora para uma vida verdadeiramente cristã. Espero que não sejamos, sobretudo, orgulhosos demais pra isto.