Archive for maio \15\UTC 2011

Radicalidade

maio 15, 2011

A radicalidade religiosa dá ordens de execução. A radicalidade do amor sacrifica-se. A radicalidade religiosa nos torna fanáticos, seguidores de uma ideologia que, como todas as outras, é frágil, falível, contextual; preterindo princípios em nome de normas periféricas. A radicalidade do amor nos faz criativos, críticos e bem intencionados; dinâmicos na apresentação e representação de nossas verdades centrais. A radicalidade religiosa nos esvazia de conteúdo, quando sedimenta nossa mente, e nos induz à vergonha, impedindo a humildade em reconhecer que, apesar de  nos chamarmos filhos de Deus, somos passíveis de erros, inclusive sobre como entendê-lo, seguí-lo, obedecê-lo; sem conhecer o poder da dúvida, nos negamos a reavaliar conceitos milenarmente falidos. A radicalidade do amor é sensível à dor alheia, aos conflitos existenciais de outrem e, longe de atribuir culpa e condenação existencial, procura dar sentido onde há carência de significado, onde há sofrimento interior, crise espitirual. A radicalidade religiosa invade, ganha terreno, disputa influência e poder. A radicalidade do amor é capaz de esperar, pacientemente, à porta. 

“Se alguém abrir a porta… entrarei… e será Alegria… Juntos”.

Anúncios

Profundidade. Eternidade.

maio 15, 2011

Não houve sequer uma noite que Ele não reviu dolorosamente o passado. Ter fugido do egito depois de assassinar um homem, ainda que por uma causa justa, o marcou profundamente. Fugir significou abandonar seu povo. Abandonar as músicas que amava, os amigos e parentes, os pequeninos e pequeninas de Isaque, os velhinhos sofridos de Israel, gente que habitava sua alma permanentemente. Fugir, para Moisés, certamente foi uma dor profunda. Mas do mesmo modo como a dor penetrou profundamente, assim também a Palavra e suas verdades sutis invadiram seu coração. Nos anos no deserto, Moisés tornou-se sensível. Aprendeu a amar uma mulher e edificou sua casa. Aprendeu a submeter-se a uma autoridade, na figura do sábio sogro. Aprendeu a cuidar sem oprimir. Aprendeu o valor do silêncio, da calma, da reflexão a sós. E foi ali, no deserto, que Moisés aprendeu uma das lições mais profundas e poéticas de sua vida, diante da Sarça, que ardia em chamas, mas não se consumia. Ver a Sarça arder foi como relembrar a dor de um povo oprimido, sem sorte, massacrado pelo mundo cruel e primitivo. Mas perceber que ela não se consumia, que permanecia, ainda que engolida pelas chamas, o fez entender a grandiosidade do Deus que estava prestes a conhecer, um Deus que se lembra de todos os oprimidos, ainda quando estes acreditam estar inevitavelmente entregues ao esquecimento. Nas noites seguintes, quando os sonhos e visões de opressão retornaram, eles foram afastados pela lembrança da Promessa: Uma promessa de Eternidade. Sem mais dores.